{"id":5059,"date":"2022-02-09T11:10:49","date_gmt":"2022-02-09T14:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/?post_type=blog&#038;p=5059"},"modified":"2022-02-09T11:10:49","modified_gmt":"2022-02-09T14:10:49","slug":"a-futura-lei-do-superendividamento-e-o-consumidor-internacional-conjur","status":"publish","type":"blog","link":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/blog\/a-futura-lei-do-superendividamento-e-o-consumidor-internacional-conjur\/","title":{"rendered":"A FUTURA LEI DO SUPERENDIVIDAMENTO E O CONSUMIDOR INTERNACIONAL (CONJUR)"},"content":{"rendered":"<p class=\"authors\">Em breve deveremos ter a san\u00e7\u00e3o presidencial e promulga\u00e7\u00e3o definitiva do Projeto de Lei n\u00ba 1.805\/2021 j\u00e1 denominado Lei do Superendividamento e apontado por muitos como importante ferramenta para a economia brasileira p\u00f3s-pand\u00eamica. O senhor presidente da Rep\u00fablica tem at\u00e9 esta quinta-feira (1\u00ba\/7) para vet\u00e1-lo ou sancion\u00e1-lo.<\/p>\n<div class=\"wysiwyg\">\n<p>Do que se trata esse texto? \u00c9 texto substitutivo, j\u00e1 aprovado pela C\u00e2mara dos Deputados e pelo Senado Federal, de projeto de lei do Senado que tramitava\u00a0originariamente\u00a0havia oito anos (PLS n\u00ba 283\/2012). Ele visa a alterar a atual reda\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor e do Estatuto do Idoso para\u00a0<em>&#8220;aperfei\u00e7oar a disciplina do cr\u00e9dito ao consumidor&#8221;<\/em>\u00a0e entrar\u00e1 em vigor na data de sua publica\u00e7\u00e3o. As altera\u00e7\u00f5es promovidas s\u00e3o bastante extensas e n\u00e3o se limitam \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do que venha a ser o superendividamento (<em>&#8220;impossibilidade manifesta de&#8230; pagar a totalidade de suas d\u00edvidas de consumo&#8221;<\/em>).<\/p>\n<p>O texto da futura legisla\u00e7\u00e3o, por exemplo, prev\u00ea a inclus\u00e3o, na Pol\u00edtica Nacional das Rela\u00e7\u00f5es de Consumo, de medidas de valoriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o financeira e o tratamento e as medidas preventivas ao superendividamento. Esses pontos, ali\u00e1s, s\u00e3o tamb\u00e9m al\u00e7ados ao posto de &#8220;direitos b\u00e1sicos do consumidor&#8221; junto \u00e0 informa\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o por unidade de medida (algo j\u00e1 previsto na Lei n\u00ba 10.962\/2004, com reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n\u00ba 13.175\/2015) e a preserva\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo existencial por meio de instrumentos de revis\u00e3o e repactua\u00e7\u00e3o de d\u00edvida.<\/p>\n<p>Destacamos, contudo, outros dois pontos que n\u00e3o podem passar desapercebidos em raz\u00e3o da quantidade e volume de altera\u00e7\u00f5es realizadas na reda\u00e7\u00e3o original dos dois estatutos. Tratam-se\u00a0justamente\u00a0dos futuros incisos XVII e XIX do artigo 51 do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor.<\/p>\n<p>Pelo seu texto, tornar-se-iam cl\u00e1usulas abusivas, e, portanto,\u00a0<em>&#8220;nulas de pleno direito&#8221;,<\/em>\u00a0as cl\u00e1usulas que\u00a0(XVII)\u00a0<em>&#8220;condicionem ou limitem de qualquer forma o acesso aos \u00f3rg\u00e3os do Poder Judici\u00e1rio&#8221;<\/em>\u00a0e (XIX)\u00a0<em>&#8220;prevejam a aplica\u00e7\u00e3o de lei estrangeira que limite&#8230; a prote\u00e7\u00e3o assegurada&#8221;<\/em>\u00a0pelo C\u00f3digo de Defesa do Consumidor.<\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o desses dispositivos e sua interpreta\u00e7\u00e3o devem ser feitas com certo cuidado. Cientes disso, passemos\u00a0inicialmente\u00a0\u00e0 an\u00e1lise do inciso XVII.<\/p>\n<p>Trata-se de reda\u00e7\u00e3o geral que j\u00e1 constou de outros instrumentos que visavam \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do consumidor (por exemplo, item 3 da Portaria SDE n\u00ba 03\/2001). Seu problema, contudo, est\u00e1\u00a0justamente\u00a0em sua generalidade, isso porque\u00a0aparentemente\u00a0o dispositivo pode estar direcionado a cl\u00e1usulas de elei\u00e7\u00e3o de foro estrangeiro (cl\u00e1usulas por meio das quais se escolhe o \u00f3rg\u00e3o judicial respons\u00e1vel pela an\u00e1lise de futuro conflito). Mas n\u00e3o seria positivo que assim o fizesse?<\/p>\n<p>Acontece que a an\u00e1lise de eventual abusividade do contrato e de suas cl\u00e1usulas (m\u00e9rito) depende, previamente, da identifica\u00e7\u00e3o do Direito aplic\u00e1vel ao contrato (por exemplo, se o contrato foi celebrado nos Estados Unidos, ser\u00e1 o Direito americano aplic\u00e1vel a ele \u2014 mesmo que seja o conflito julgado no Brasil). Antes da an\u00e1lise do m\u00e9rito de qualquer caso internacional, contudo, \u00e9 imprescind\u00edvel afirmar a compet\u00eancia daquele que o julga. Assim, ao se afirmar que a cl\u00e1usula \u00e9 abusiva, se estaria aplicando \u2014 de antem\u00e3o \u2014 o Direito brasileiro (CDC), sem se saber se a pessoa que o faz \u00e9 competente para julgar o contrato e\u00a0mesmo\u00a0se o Direito que deve ser aplicado \u00e9 o brasileiro.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, portanto, seria mais aconselh\u00e1vel que fosse \u2014 tamb\u00e9m \u2014 reformado o pr\u00f3prio CDC ou o artigo 25 do C\u00f3digo de Processo Civil para proibir ou limitar a elei\u00e7\u00e3o de foro estrangeiro em contratos de consumo celebrados no Brasil e, ainda, a LINDB para determinar a aplica\u00e7\u00e3o do Direito brasileiro quando o consumidor aqui fosse domiciliado, por exemplo. De qualquer forma, tais reformas, em princ\u00edpio, n\u00e3o alcan\u00e7ariam contratos celebrados fora do Brasil que n\u00e3o estivessem sujeitos \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o e \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o brasileiras.<\/p>\n<p>J\u00e1 o futuro inciso XIX se direciona \u00e0 escolha do Direito aplic\u00e1vel a contratos internacionais de consumo. Em princ\u00edpio, pela atual legisla\u00e7\u00e3o brasileira, a proibi\u00e7\u00e3o seria desnecess\u00e1ria, j\u00e1 que a LINDB (artigo 9\u00ba) determina a incid\u00eancia obrigat\u00f3ria de Direito por ela definido, n\u00e3o cabendo \u00e0s partes a sua escolha. Assim, uma cl\u00e1usula\u00a0inserida em um contrato celebrado no Brasil\u00a0que determine a incid\u00eancia de Direito diverso daquele definido pela LINDB j\u00e1 seria ineficaz. O problema surge quando o contrato n\u00e3o tiver sido celebrado\/formado no Brasil, incidindo, por exemplo, legisla\u00e7\u00e3o que permita tal escolha. Nesses casos sequer seria aplic\u00e1vel o CDC. A d\u00favida residiria, ent\u00e3o, se\u00a0no futuro\u00a0poderia a parte invocar esse dispositivo para que fosse negada a eventual homologa\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a estrangeira?<\/p>\n<p>O tema do Direito aplic\u00e1vel a contratos internacionais de consumo submetidos \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o brasileira, ali\u00e1s, j\u00e1 foi e \u00e9 objeto de outros dois projetos de lei (PLS n\u00ba 281\/2012 e 1.038\/2020, respectivamente) que visam \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o da mencionada LINDB e que o abordam de forma mais detalhada. Infelizmente, a tramita\u00e7\u00e3o e a discuss\u00e3o da Lei do Superendividamento n\u00e3o os aproveitou.<\/p>\n<p>O leitor que nos acompanhou at\u00e9 aqui pode estar se preocupando: mas isso tudo \u00e9 relevante? Sim, at\u00e9 porque a contrata\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia e a internacionaliza\u00e7\u00e3o dos contratos de consumo \u00e9 realidade antiga. Antes da crise sanit\u00e1ria, por exemplo, proliferavam os contratos de\u00a0<em>timeshare<\/em>\u00a0celebrados\u00a0no exterior\u00a0por consumidores turistas brasileiros. Atualmente, com a acelera\u00e7\u00e3o da digitaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es negociais (<em>outsourcing<\/em>\u00a0digital, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os a dist\u00e2ncia\u00a0etc.) \u00e9 uma realidade. Ali\u00e1s, voc\u00ea j\u00e1 checou os termos das redes sociais e dos aplicativos de comunica\u00e7\u00e3o que utiliza? Invariavelmente voc\u00ea encontrar\u00e1 essas duas cl\u00e1usulas por l\u00e1.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"featured_media":3841,"template":"","blog_cat":[119,117],"class_list":["post-5059","blog","type-blog","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","blog_cat-direito-do-consumidor","blog_cat-direito-internacional-privado"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/blog\/5059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/blog"}],"about":[{"href":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/blog"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"blog_cat","embeddable":true,"href":"https:\/\/old.glitzgondim.adv.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/blog_cat?post=5059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}